Revolta dos Malês é símbolo da intolerância contra Islã

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Uma das principais evidências da intolerância contra os muçulmanos na época do Império no Brasil foi a Revolta dos Malês, que estalou em Salvador (BA) exibindo a insatisfação de negros adeptos do islamismo com a perseguição por eles sofrida. Análise nesse sentido foi feita pelo Professor Paulo Gabriel, da Universidade Federal Fluminense (UFF) no Congresso História, Experiências Religiosas e Democracia. Na mesa sobre Liberdade Religiosa e Liberdade de Expressão, O Professor Gabriel ressalta que, mesmo tanto tempo depois daquela rebelião na Bahia, ficou demonstrado que a vitalidade espiritual estava nos negros que chegavam e eram submetidos como escravos.

O especialista recordou ainda que a parcela de 15% do total dos que chegaram ao Brasil do fim do século 19 até 1930 era formada por muçulmanos.  Ele disse que havia estereótipo sobre os muçulmanos e a eles se atribuía características de fanatismo e atraso. Esta intolerância originada por desconhecimento e preconceito não ficava restrita aos espaços de religião, pois se estendia aos de convivência pessoal, familiar e de grupo. Gabriel registrou também que no cotidiano brasileiro os descendentes de árabes são praticamente forçados a cortar os laços com a sua origem no Oriente Médio.

A primeira mesquita do país, segundo o Professor da UFF, começou a ser construída no ano de 1938 e foi concluída em 1946. Na época da ditadura militar (1964 a 1985) os árabes em geral eram vistos como pró-soviéticos. Na década de 1970 os árabes já eram vinculados a terrorismo, afirmou ele.  Após os atentados ocorridos em 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos (EUA), o islamismo voltou a ser identificado como fanatismo no plano internacional.

Integrou a mesma mesa a Pesquisadora Lígia Duque Platero, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que realiza estudos sobre reserva indígena em Mato Grosso (MT). Ela advertiu que o aumento do número de fazendas naquele estado esvaziou reservas de índios. Ao mesmo tempo, o desmatamento na reserva tornou inviável um modo de vida próprio e perto da natureza.

Lígia Platero já entrevistou 16 pessoas, inclusive uma professora Kayowá Guaraní. O seu trabalho revela que a descaracterização é mais ampla em vem de muito tempo. Com a política indigenista iniciada em 1916 levou ao surgimento dos capitães indígenas. Estes, em 1917, não eram figuras importantes, mas com o tempo passaram a ocupar o lugar de liderança dos Xamãs.

Em 1928, segundo a estudiosa, chegou à reserva a primeira missão evangélica. Na década de 1950 as missões proibiam os cultos dos índios e diziam se tratar de coisa do diabo. Até os anos 1980 eram formados grupos de convivência e solidariedade. A conversão dos índios não significava aceitar a religião dos missionários. As famílias indígenas compareciam às sessões evangélicas, mas também participavam dos encontros da sua própria espiritualidade.

Com doutorado que teve a Umbanda como tema da sua tese, José Henrique de Oliveira, da UFRJ, disse na mesma mesa que, durante o Estado Novo, a Religião usou a institucionalização e a homogeneização da Umbanda contra a repressão policial. O acadêmico acrescentou que à época o Poder Público central tinha interesse pela persistência da Umbanda por considerar que ela reunia elementos da tradição indígena, da catequese europeia e da influência africana.

O primeiro centro de Umbanda, a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, havia surgido em 1908. A Federação Espírita de Umbanda foi fundada em 1939 e o I Congresso Espírita aconteceu em 1941. Depois apareceram federações nos estados. A constatação de Henrique de Oliveira é no sentido de que a mediação das federações levou a uma burocratização dúbia do espaço sagrado. A principal atividade das federações era cuidar de elaborar e registrar os estatutos dos centros espíritas. Com o passar do tempo as citadas entidades associativas foram perdendo importância, sobretudo a partir da promulgação da Constituição de 1988, cujo texto incorporou o direito à liberdade religiosa.

Outro palestrante da mesa foi o Professor Jonas Machado, da Federação de Teologia Batista de São Paulo. Ele assinalou que o diálogo interreligioso não é fácil, mas é necessário. Em sua opinião o cuidado da alma de cada homem deve ser deixada a cargo apenas de cada homem. Concluiu dizendo que a ideia de liberdade religiosa deve se ligar à de Estado laico, e ainda que usar a religião como trampolim para o poder restringe a religião.

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