Seminário “Caminhos para uma Educação Democrática” lota auditório em Seropédica

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Aproximadamente 130 pessoas participaram do seminário “Caminhos para uma Educação Democrática – Lei: 10.639/03”, no auditório do Centro de Atendimento Integral à Criança e ao Adolescente (CAIC) Paulo Dacorso Filho, na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), em Seropédica, na última quinta-feira, 20 de outubro. O dia foi repleto de debates e palestras, que discutiram as diversas maneiras pela implementação da lei – que torna obrigatório o ensino da História da África e Cultura Afro-Brasileira nas escolas – e os trâmites do Concurso de Redação Camélia da Liberdade 2011. O evento foi realizado pelo Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP), com o apoio da Prefeitura de Seropédica.

A mesa de abertura foi composta pelo secretário executivo do CEAP, Luiz Carlos Semog; pelo membro do Conselho Municipal da Igualdade Racial e coordenador de História da África e Culturas Afro-Brasileiras e Indígenas da Secretaria Municipal de Educação de Seropédica, José Maurício Novaes de Abreu; pela coordenadora dos Agentes de Pastoral Negros (APNs) do Rio de Janeiro, Darci da Penha Pereira; subsecretária de Ensino, Eliana Cristina Ribeiro; vereadora do município, Maria José; e a presidente da Associação de Mulheres Negras e Afro-descendentes da Rasa (Somunear), da Armação de Búzios, e membro do Conselho Estadual do Direito do Negro (Cedine), Sirlei Regina de Souza Pereira.

Luiz Carlos Semog deu início ao evento contando a história do CEAP e da importância do evento para a entidade. “A história da instituição sempre foi voltada para os Direitos Humanos. O concurso de redação é um resgate de uma luta contínua. Não podemos deixar que sequestrem a história do negro. Essa lei não é uma dádiva, é resultado de uma luta, uma conquista. Não estamos preocupados apenas com o ensino da história da África, pois isso é uma dívida. O principal é o cumprimento da lei”, disse.

Lembrando também que há um processo de racismo instalado na sociedade, Semog acredita que deve-se intervir. “Temos que alavancar uma perspectiva, entre tantas, na nossa educação”, concluiu.

Reflexão

Para Eliana Ribeiro, é fundamental entender melhor a dinâmica pedagógica e o comprometimento dos professores com essa questão. A subsecretária de Ensino pediu que os participantes refletissem sobre a lei e a aplicabilidade dela, sobre a pluralidade cultural do País, e sobre os direitos de cada um e a prática pedagógica. “Juntos, podemos construir uma escola pública laica e de qualidade”, ressaltou.

José Maurício falou da importância do evento para que o professor busque mais informação, lembrando que é mais uma formação continuada, que vai trabalhar a lei. “O que nós estamos fazendo pelo preconceito tem que ser um trabalho contínuo. Temos que saber como agir para acabar com esse problema”.

Darci acredita ser uma conquista trabalhar a 10.639, que deve ser incluída em todas as disciplinas e não apenas em História. “A educação é um processo lento. Foram muitos anos de escravidão e, infelizmente, demoraremos a corrigir esse erro. A lei exige que cumpramos o que nela está escrito. Se você não cumpre, tem penalidades”.

Sirlei Pereira, falou do resgate da cultura afro-brasileira e da importância da aceitação da identidade cultural dos brasileiros. “De onde saímos? Onde é o nosso umbigo cultural? Nós todos somos afro-brasileiros. Quando nós assumirmos a nossa identidade, vamos conseguir passar por essa lei. Pensar na questão da Lei 10.639 é pensar em nós mesmos, em qual é a nossa identidade cultural. Temos que passar isso para as nossas crianças e destacar a questão das matrizes africanas. É parte da cultura brasileira”, explicou.

Intolerância religiosa

Segundo a vereadora Maria José, é uma alegria estar presente em momentos como o deste evento, sem o preconceito que vivenciou durante a infância no interior de Minas Gerais. Ela lembrou também da questão da intolerância religiosa. “Temos que arrancar o preconceito do seio da sociedade. A intolerância religiosa também está arraigada nela. É muita prepotência da nossa parte achar que a fé é única”, disse. “Estou aqui para aprender e refletir”.

O cartunista Ykenga, responsável pela ilustração da história em quadrinhos “Luiza Mahin, uma Rainha Africana no Brasil”, tema e material de apoio do concurso de redação deste ano, compôs a mesa seguinte, juntamente com Luiz Carlos Semog. O cartunista falou de sua experiência com os desenhos e da facilidade que os jovens têm de estudar ou conhecer uma história através deles. “Eu sou mais de traço do que de palavras. Trabalho há anos com essa arte. Hoje, desenvolvo um projeto com crianças de uma escola em São Gonçalo, município do Rio de Janeiro. Elas têm mais facilidade de aprender desta forma, está mais próximo da realidade das crianças e adolescentes, há mais interesse da parte delas”, disse.

Semog falou da trajetória do concurso, que está na quinta edição no Rio de Janeiro e quarta em São Paulo, e da proposta de reflexão que o projeto leva para a escola, além de explicar o funcionamento e premiação do concurso “Temos que falar do negro dentro da literatura brasileira. E, no resgate desse processo, vamos ver muitas coisas curiosas”, concluiu.

Darci Pereira e Mara Ribeiro participaram da mesa “Consolidando Práticas Democráticas: História e Cultura Africana e Afro-Brasileira nos Currículos Escolares”. Darci discursou acaloradamente sobre a aplicabilidade da lei nas escolas. Para ela, um seminário apenas não é o bastante para se entender uma história de 500 anos. É preciso de preparo para poder ousar e entender toda essa cultura, inclusive a questão da religião, que também tem que ser trabalhada. “Precisamos de ferramentas que nos deem munição para implementá-la. Quando o africano veio pra cá, trouxe toda a cultura e a religião. Devemos preservar a diversidade, salvar o conteúdo histórico de cada época. A lei 10.639 é um ato de amor e respeito com um grupo étnico desse País que foi muito desvalorizado. Temos que olhar para essa lei com muito carinho”, disse.

Darci aproveitou para dar algumas dicas para os educadores como ter conhecimento, tolerância e respeito, contemplação, envolvimento, aceitar os desafios, abertura do novo, compromisso com o ofício de ser educador na teoria e na prática.

“Tudo passa pelo negro”
Mara Ribeiro falou sobre pedagogias escolares e os desafios da lei, apresentando diversas atividades já realizadas pelas escolas municipais. “A proposta da implementação da lei vai além de apresentar um personagem negro, tem que inserir em todos os conteúdos. Da alimentação ou vestuário, tudo passa pelo negro. Não acredito em outra forma de apreensão de conteúdo que não seja a produção de conhecimento”, analisou.

O seminário também recebeu as professoras Eloísa Elena Sabino Ribeiro e Azoilda Loretto, coordenadora do debate, na mesa “Diálogos com a Lei:10.639”. Eloísa discursou sobre a doença falciforme na escola, apresentando os sintomas e diagnósticos e deu orientações gerais sobre a doença. Já Azoilda também apresentou questões ligadas à implementação da lei e falou, como educadora, do incômodo que sente com as desigualdades e da questão do ensino religioso e suas implicações. “As pessoas não se assumem como afro-descendente no cotidiano. Como não conhecem o continente fundador da nossa humanidade? Esse é um patrimônio que fala da nossa história”, destacou.

Para ela, as pessoas não se organizam no cotidiano para enfrentar as desigualdades e o racismo, e, muitas vezes, silenciam ao se deparar com isso. “Eu compartilho que educadores e educadoras podem fazer a diferença, um pouquinho que seja, na sala de aula. Vamos tentar transformar uma escola racista em uma escola efetivamente para todos e todas”, desabafou.

O evento seguiu com debates entre os participantes das mesas e o público, que participou intensamente, levando diversas questões relacionadas à aplicabilidade da lei nas escolas, à intolerância religiosa, ao racismo e à diversidade cultural do País à tona. O grupo Ozizi-Gue-Lê, formado por alunos do Centro Educacional Alfredo Prado, de Seropédica, que se apresentou cantando e dançando músicas africanas, fechou o evento.


Centro de Articulação de Populações Marginalizadas – CEAP
Comunicação CEAP – Tel.: 21 7846-0412 / 21 2232-7077

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