Seminário sobre negros na gestão pública leva importantes nomes ao IFCS

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O Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP) realizou, durante toda a tarde do dia 26 de novembro, com apoio do Laboratório de Estudos da África (LeÁfrica) o seminário “Experiências Afro-Brasileiras na Gestão Pública” e lançamento do livro “Os Afro-Brasileiros na Gestão Pública”, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) e Instituto de História da UFRJ. A atividade contou com dezenas de pessoas, e teve nomes importantes do cenário político brasileiro nas mesas de debates.

Fábio Lessa, representando o Instituto de História da UFRJ, declarou a importância do local receber o seminário. “Somos uma casa que tem o saber como princípio. É a universidade se abrindo para a sociedade através do LeÁfrica”, revelou.

Mônica Lima, também do LeÁfrica, ressaltou que os trabalhos sobre História da África na UFRJ são recentes e que quaisquer ações com a intenção de adquirir e compartilhar conhecimentos eram bem-vindas. “A História da África é recente na UFRJ e foi alavancada pela Lei 10.639/03 (institui os ensinos das histórias da África e da Cultura Afro-Brasileira nas escolas do Brasil), que é uma reivindicação do Movimento Negro. Toda a sociedade brasileira ganhou com essa inclusão nos currículos. Este evento veio de encontro ao nosso desejo de contribuir, pois, por sermos a maior universidade pública do País, e este País ser construído pelos negros, ela (UFRJ) tem de estar à disposição dessa causa”.

A gerente de projetos do CEAP, Sidnéia Pereira, abriu com agradecimentos e contou sobre o orgulho da instituição em promover a atividade, que foi a última de 2013 alusiva ao Dia da Consciência Negra. “Propor este trabalho dá muito orgulho ao CEAP. Diante dos grandes nomes que teremos nas formações das mesas de hoje, serei breve e, em nome do CEAP, agradeço pela presença de todos, e faço questão de congratular os que compõem as mesas”, proferiu.

Após a mesa de abertura, Jorge Damião representou a instituição realizadora e recebeu Hédio Silva Júnior, Secretário de Justiça e da Defesa da Cidadania de São Paulo (2005-2006); Diva Moreira , secretária municipal para Assuntos da Comunidade Negra / BH (Smacon – 1998-2000); Mário Lisboa Theodoro, economista da Universidade de Brasília; e Vanda Maria Ferreira, assessora especial para Assuntos de Gênero e Raça da SPM – Rio.

“Gramática de gueto”

“A Secretaria de Justiça, no ponto de vista orçamentário, não é poderosa. No entanto, tem um lugar simbólico importante, ao lado do secretário-chefe. Poderia citar centenas de benfeitorias da nossa gestão. Porém, quero falar sobre o que incomoda a gestão pública, que é a gramática do isolamento ou a gramática de gueto. Parte dos negros se contenta com cargos de alto escalão em instituições criadas para cuidar de negros. Isso me parece dramático”, revelou Hédio Silva Júnior, que contou o fato de que, numa conversa com o filho, percebeu a falta de negros para cargo de desembargador. “Eu e meu filho falávamos como não temos advogados negros para desembargadores nos tribunais de Justiça. Meu filho já percebeu que negros só presidem comissões de combate ao racismo. A diversidade é um pré-requisito básico para educação de qualidade, e precisamos nos dar conta de que este não é um problema de preto, mas do Brasil”.

Em sua fala, Júnior citou o conselheiro estratégico do CEAP, babalwo Ivanir dos Santos, que não esteve no seminário por compromissos fora do Rio de Janeiro. “Ivanir levantou a pauta da intolerância religiosa no Rio de Janeiro e não se limitou à gramática do gueto. Conversou com católicos, muçulmanos e diversos outros segmentos que sofrem perseguição. Isso é que deve ser feito para mudar o Brasil: construir alianças que sejam compreendidas pela sociedade como um todo, e não em parte”.

Diva Moreira, para que os espectadores entendessem suas colocações, expôs que a academia tem uma linguagem. Mas, ao tratar da questão do racismo, “todo mundo se mete”. Ela contou que, para que a secretaria na qual trabalhou fosse aprovada, trabalhou por quase um ano conversando com vereadores, e explicando sobre as necessidades do órgão existir. “Muitos se recusavam a me receber”, explicitou, completando que o racismo, muitas vezes, é fruto de desconhecimento. “Essa questão da população negra no racismo é muito importante. Muito do racismo vem do desconhecimento. Nessas últimas décadas, quem mais sofre é a população negra. Não é à toa que estamos no topo dos homicídios. São fundamentais um estado fortalecido e a conscientização de que essa agenda neoliberal trafega contra nós”.

Racismo como divisor

Mário Lisboa acredita que o racismo é um marco para a sociedade desigual e relatou sobre o perigo de se achar que fome, pessoas sem moradias e outros males da sociedade sejam naturais. “O racismo no Brasil é o grade divisor que faz a sociedade desigual. Você pode naturalizar que pessoas passem fome, morem nas ruas. Tive experiência na Seppir, mas, antes, no Ipea. Na estrutura de governo, a Seppir não tem orçamento e, por isso, tem que negociar com outros ministérios. Esse contexto nos traz grandes aprendizados. Mas a população negra não ascendeu”, disse, complementado com falas sobre recursos financeiros e poder. “Enquanto o poder público não destinar recursos para a questão racial, vai ficar no gueto. Recurso financeiro é poder, e a questão racial é de toda a sociedade. Porém, o dedo na ferida, hoje, é o Fundo Nacional da Igualdade Racial. Temos boas intenções, mas não temos recursos. Tem de haver a volta da construção do Fundo”, opinou.

Vanda Ferreira quis complementar a fala de seus antecessores e citou que as colocações foram brilhantes. Contudo, a professora ressaltou que era preciso fazer história. “O Hédio e o Mário falaram brilhantemente. No entanto, precisamos fazer história. Falar de Administração é falar de Abdias Nascimento. Foi ele quem deu um marco de como foi, como é e como será nossa utopia. Tenho 47 anos de magistério, sou aposentada, mas ainda dou aulas. Converso com feirantes, motoristas de ônibus, e acho que esse é um grande exercício. Sendo professora, começo a ter ideia do poder público que ainda passa de pai pra filho”, proferiu Pereira, contando um pouco de sua história ao ter que substituir Abdias. “Falar a linguagem do Executivo é muito difícil. Sinto-me honrada, pois, sendo mulher e não tendo o conhecimento do Abdias, ao voltar para seu posto, me disse ‘parece que saí daqui ontem. Está tudo como deixei’. Ele colocou para Brizola toda a questão racial, e muitos negros, naquela época, ocuparam cargos políticos. Hoje, contamos nos dedos os negros no poder. Não acho que se deva negar as pastas que tratam da igualdade racial, mas quero ver negros ocupando outras pastas”, terminou, fazendo homenagem a Abdias Nascimento, entregando flores à viúva, Elisa Larkin.

Esforço

Já na terceira mesa, um dos organizadores do livro “Os Afro-Brasileiros na Gestão Pública”, Astrogildo Esteves Filho mediou o debate, que contou com Albuíno Azeredo, governador dos Espírito Santo (1990-1994); Eunice Lea, assessora para Assuntos Federativos da Seppir; e Alceu Collares, governador do Rio Grande do Sul (1991-1994).

Filho comentou que a realização do seminário ocorreu devido aos esforços dos afro-brasileiros na gestão pública e que a obra “Os Afro-Brasileiros na Gestão Pública” iniciou em 2010. “Foi um grande desafio, mas sentimos reconfortados com o resultado”, declarou, enfatizando, também, a forma como acadêmicos analisaram o livro. “Os acadêmicos avaliaram de forma surpreendente. Marcelo Paixão, por exemplo, fez uma análise sociológica e dimensiona a importância que os afro-brasileiros têm de pensar em publicar nossas referências”.

Albuíno Azeredo afirmou que o estado o qual governou tem predomínio da imigração italiana e que foram necessárias muita crença e determinação. “Com todos os entraves, foi justamente nossa gestão que mostrou ao povo que Albuíno era um bom gestor. Os obstáculos foram de naturezas políticas, físicas, econômicas, mas tivemos um desempenho que marcou o Espírito Santo”, afirmou.

Azeredo contou que Nelson Mandela passou dois dias com ele e que, à época, a imprensa ressaltava aspectos negativos do africano. Quatro anos depois, Mandela chegara à Presidência. Em sua fala, Albuíno Azeredo contou também que sua filha mais velha sofreu agressão em um elevador, e sua família não conseguiu punir o autor. “Ela estava de sandálias em um elevador. O cara virou para ela e pediu que descesse, pois ali não era lugar de empregada. Ela recusou-se, foi esbofeteada, mas não conseguimos punir o agressor”.

Eunice Lea começou sua fala afirmando que dez livros como o que estava sendo lançado seriam necessários para contar tantas histórias. De acordo com a representante da Seppir, vários negros participam da gestão pública. “É uma experiência que vem se modificando, no sentindo de ampliar e colaborar com esta luta”, ratificou.

Alguns questionamentos foram impostos por Lea: “As vitórias que temos hoje são frutos de muitas mortes, de pessoas que adoeceram. Como a juventude está se apropriando dessa história? Estar numa gestão pública é difícil porque apanhamos de negros e brancos. Fazer a gestão pública na perspectiva étnico e racial é muito difícil. Já trabalhamos há muito tempo, e a hora é de modificar as estruturas antigas. O que não pode é 53% da população não estar representada”, defendeu.

Collares discursou sobre o problema que a escravidão foi para o Brasil e disse que os negros não precisam de reparações. “Por 350 anos, trabalho foi coisa de negro, e não de branco. Não são reparações que apagarão isso. Nós temos direitos e só não somos mais fortes pelo fato de nos faltar consciência. As cotas não são favores, pois a nação deve a escravidão ao povo. O negro não tem vez”.

Após as mesas, houve coquetel pela celebração do lançamento do livro.

Vejam as fotos AQUI.

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