Ivanir dos Santos

Ivanir dos Santos

Ivanir dos Santos

Ivanir dos Santos nasceu em l955, no Rio de Janeiro. Filho de Sandra Maria Ivanir dos Santos, ex-trabalhadora dos canaviais de Campos dos Goytacazes, que vem para o Rio trabalhar como doméstica, e do mecânico José do Carmo Santos.

Nasceu e se criou na favela do Esqueleto, Mangueira, onde hoje se localiza a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), até ser internado à força no antigo Juizado de Menores. Sua história se confunde com as bandeiras de lutas por liberdades, justiça e o fim do racismo. Criado durante a infância e adolescência nos corredores e pátios da antiga Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor – Funabem.

Foi aluno da Escola Quinze, no Bairro de Quintino, e tornou-se músico. Trabalhou como operário e, mais tarde, educador, formando-se em pedagogia pela antiga Faculdade Notre Dame, em Ipanema.

Discriminado, vítima da violência policial, como o conjunto da população negra e pobre deste País, ao sair da Funabem é estigmatizado como ex-aluno. Reúne-se com antigos internos e funda a Associação de Ex-alunos da Funabem – Asseaf, em 1980. À frente da entidade, foi o primeiro a levantar a voz contra a marcante diferença entre a Criança (filhos de abastados) e o Menor (filhos de pobres) e a denunciar a ação crescente dos grupos de policiais subsidiados por comerciantes com o objetivo de matar crianças negras que cometiam pequenos furtos.

Em 1982, como representante da Asseaf, é convidado a participar do Congresso do Movimento Negro Unificado que ocorreu em Belo Horizonte, Minas Gerais.

A pedido da Defense for Childrem International – DCI, entidade com sede em Genebra, Suíça, coordenou, em 1988, o primeiro levantamento sobre o extermínio de crianças brasileiras. O documento, inédito, transformou-se numa referência nacional e internacional na luta pelos direitos humanos, provocando no Congresso Nacional a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar o extermínio de crianças e adolescentes no Brasil.

Após o brutal assassinato de sete crianças e um adulto ao lado da Igreja da Candelária, Rio de Janeiro, este movimento de mobilização cresce e sensibiliza o País e a opinião pública internacional. Já na posição de combativo militante da luta contra o racismo e na defesa intransigente da defesa dos direitos da criança e do adolescente marginalizados, com especial atenção para as mulheres e a população que vive em favelas e bairros periféricos, Ivanir dos Santos amplia espaços e cria, junto com setores do Movimento Negro e de Mulheres, o Centro de Articulação de Populações Marginalizadas – CEAP, instituição que sempre liderou.

Com suas ações, criou jurisprudência sobre a Lei nº. 7.716, que transformou o racismo em crime inafiançável e imprescritível. Por sua luta contra o racismo, a xenofobia e a intolerância, recebeu, em 1997, da Federação Israelita do Rio de Janeiro, o Prêmio Adolpho Bloch. Em 10 de dezembro de 1999, Dia Internacional dos Direitos Humanos, foi agraciado com o Prêmio Nacional de Direitos Humanos, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, conferido por uma comissão da sociedade civil e membros do governo, entregue a Ivanir dos Santos pelo presidente da República.

Trabalhando para identificar crimes de racismo, através do CEAP, Ivanir dos Santos denuncia a gravadora Sony Music no Brasil por ter gravado música com conteúdo racista, ofensiva às mulheres negras, e, nas varas Cíveis e Criminais, denuncia ao Ministério Público Federal o ministro de estado de Transporte, por ter ofendido a comunidade negra brasileira.

As campanhas Não Matem Nossas Crianças, Pela Abolição do Trabalho Infantil Contra a Esterilização em Massa de Mulheres Negras, e Tráfico de Mulheres é Crime ultrapassaram fronteiras e mobilizaram governos e movimentos internacionais.

Ivanir é recebido na Suécia por Elizabeth Palm, viúva do ex-Primeiro Ministro Olav Palm; na Inglaterra, no parlamento, por Bene Gran, parlamentar negro do Partido Trabalhista Inglês; na França, por Danielle Miterrand, primeira-dama francesa, que em visita ao Brasil se comprometeu a financiar, através da entidade France Liberté, a publicação Mães de Acari. O livro relata a dor e a garra de um grupo de mulheres – e o assassinato de uma delas, Edméia da Silva Euzébio –, na luta que travam em busca de 11 crianças pobres, sequestradas e desaparecidas desde 1991. A publicação sintetiza a saga de todas as mães negras e pobres da América Latina a procura dos filhos desaparecidos.

No Brasil, fez parte do comitê de recepção a Nelson Mandela, em sua primeira visita ao país ao sair do cárcere, e recepcionou Coretta King, viúva de Martin Luther King, Alain Derzi do SOS Racismo da França e o Senador Jessie Jackson, personalidades da luta anti-racista internacional.

Em contato direto com a população marginalizada, traz em sua bagagem a certeza de que esta é uma luta por mudanças estruturais na sociedade brasileira, que já lhe rendeu ameaças de morte e o carro metralhado por policiais. Ivanir dos Santos faz com que suas ações sejam direcionadas também para o fortalecimento de expressões culturais, como uma forma irreversível de afirmar a cultura negra em projetos nas escolas, nos meios de comunicação, em rádios comunitárias, junto a grupos de Rap, blocos afros e Funk. Nos movimentos de rua, destaca-se, em 1995, como integrante da Coordenação Executiva da histórica Marcha Zumbi 300 anos.

Como um caminho natural, a inserção nos movimentos políticos e sociais encontra reflexos na organização partidária, levando Ivanir ao Partido dos Trabalhadores (PT). Participou como candidato a cargos no Legislativo do Rio de Janeiro em várias ocasiões. Ao longo da última década, esteve sempre ligado na organização e coordenação das campanhas majoritárias à prefeitura, ao governo do estado e à Presidência da República, sendo responsável, naquela ocasião, pela elaboração do Programa Nacional sobre Criança e Adolescente, Violência e Cidadania.

Indicado pelo PT como candidato a vice-prefeito, em chapa com o então deputado estadual Chico Alencar, à prefeitura do município do Rio de Janeiro, marca sua representatividade junto aos movimentos populares.

À frente, até 1999, da Subsecretaria Estadual de Direitos Humanos e Cidadania, Ivanir dos Santos comandou ainda a equipe que elaborou o Plano Estadual de Direitos Humanos.

A convite de entidades como Anistia Internacional, ONU, e Fundation France Liberte, viajou para inúmeros países, como África do Sul, Nigéria, EUA, Índia, Chipre, França, Suécia, Suíça, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Áustria, Alemanha, Inglaterra, antiga URSS, Uruguai, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Colômbia, Cuba e Cancun, representando o Brasil e fazendo palestras e exposições sobre a democracia racial e o extermínio de crianças e jovens negros. Seu nome foi indicado para o Prêmio Internacional pela Liberdade pelo Centro Internacional pelos Direitos da Pessoa e Desenvolvimento da Democracia, com sede em Toronto, Canadá, concedido aos que se destacam na luta pelos Direitos Humanos.

Membro da Coordenação Nacional de Entidades Negras – Conen, Ivanir dos Santos representa o Brasil no Fórum Internacional das ONGs para a IIIª Conferência Mundial contra o Racismo, Descriminação Racial, Xenofobismo e Intolerâncias Correlatas (Durban, África do Sul, 2001). Integrando o Comitê Preparatório desta IIIª Conferência Mundial promovida pela Organização das Nações Unidas, como um dos fundadores e membros da coordenação política da Aliança Afrolatina, Americana e Caribenha teve papel destacado no Encontro Regional das Américas, realizado no Chile, em defesa dos interesses dos afrolatinos, quando pela primeira vez, a importância deste debate é reconhecida: o Documento das Américas traz um capítulo sobre os afro-descendentes.

Na trajetória deste pedagogo, que em 2001 recebeu o Prêmio Cidadania Mundial, concedido pela Comunidade B´ahai e pela Unesco, sua vida é marcada pela luta contra a exclusão e todo tipo de violência, sempre através de ações afirmativas por um mundo justo e democrático.

Sua iniciação aos Orixás se deu em janeiro de 1981, em Maragojipe, Salvador, no Ilê Alabalaxê do Babalorixá Edinho de Oxossi, onde cumpriu todas suas obrigações tornando-se Babalorixá. Visita a Nigéria e, na cidade de Ogbumosho, inicia-se nos estudos de Ifá. Em fevereiro de 2006, sagra-se Babalaô pelo Olowo Jokotoye Bankole.

O Babalaô Ivanir dos Santos tem sido um incansável defensor do direito constitucional à liberdade religiosa. Participou em Salvador, em 2007, do Seminário inter-religioso, e da 3ª Caminhada pela Vida e Liberdade Religiosa, que reuniu 5 mil participantes.

Frente ao aumento das práticas de intolerância religiosa, é criada a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa. Durante a realização de audiência pública realizada na Alerj, a falta das autoridades em receber os religiosos, Ivanir dos Santos propõe a realização da Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa. É um marco na cidade, quando mais de 20 mil participantes caminham na Orla de Copacabana. Cria-se o Fórum de Diálogo Inter-religioso, que reuniu representantes de religião de mátria africana, da igreja católica, judeus, muçulmanos, presbiterianos, umbandistas, ciganos, entre outras crenças.

A força deste movimento leva o presidente da República a receber, no dia 20 de novembro, das mãos de uma comissão de religiosos encabeçada pelo Babalaô Ivanir dos Santos uma carta exigindo do Poder Executivo a garantia do cumprimento da laicidade do Estado brasileiro.

Pai de cinco filhos, casado, Ivanir dos Santos se criou brigando contra as desigualdades e lutando por um País em que a justiça seja para todos. Formou-se cidadão, é conhecido internacionalmente, e um legítimo representante da comunidade negra brasileira.